Para uma leitura orante da Palavra de Deus devemos inicialmente refletir sobre a ligação entre a palavra e a fé, tendo sempre em mente que esta abre o caminho para uma verdadeira hermenêutica da bíblia sem a qual podemos incorrer no erro gravíssimo apontado por Santo Agostinho: “a letra do evangelho também mata, se faltar a graça interior que a cura” neste sentido a interpretação da palavra de Deus deve ser precedida de uma ação orante e de uma autenticidade na fé e vida em comunidade, pois os sagrados textos nos constituem “como Palavra de Deus que Se nos comunica mediante palavras humanas”.
A bíblia é dirigida a todos os povos e assim, em conjunto, ela deve ser interpretada, guiada pela fé, e em sintonia com a doutrina da igreja católica, só se compreende o texto bíblico quem o procura viver, quem a procura aplicar verdadeiramente em sua vida, assim tanto a sagrada escritura quanto a vida de quem a lê crescem juntos, como já dizia São Gregório Magno(30).
Uma exegese teológica da sagrada escritura deve nos remeter, por consequência, a uma eficaz ação pastoral, ou seja, esta prática de reflexão é essencial para o aprofundamento da vida orante da igreja, pois impele a vivência do evangelho não somente a quem o descobre, mas a todos os ouvintes. Esta ação, é sempre guiada pelo magistério e pela tradição que constitui uma direção segura por onde as reflexões podem prosseguir e alcançar seus objetivos(33) que “é somente alcançado quando tiverem esclarecido o significado do texto bíblico como Palavra atual de Deus”. Para tanto, é necessário a observância de determinados critérios para esta leitura (34) que irão guiar o exegeta neste aprofundamento, respeitando, ainda, os três elementos básicos (fé, a Tradição e o magistério).
Neste caminhar é muito imperioso que se tenha o devido cuidado para evitar o dualismo que distorce a finalidade da exegese bíblica (35) perigos estes que podemos colocar, por exemplo, uma não atualização da palavra de Deus, e uma desconsideração do texto, uma mensagem de Deus e, até mesmo, sem ser precedida de uma autentica vivência de fé, em outras palavras “onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia já não tem fundamento” (35).
A interpretação, fundamentada na fé e na razão, em sua primeira abordagem não pode ser individualizada, ou seja, o que eu penso, mas fruto de um estudo e reflexão comunitária e filosófica, pois assim não o sendo poderia incorrer em fideísmo (36) tampouco não se permite perder o sentido espiritual da literalidade do texto o que nos remete a um aprofundamento da doutrina dos Padres a uma aplicação dos sentidos literal e espiritual para convergir numa reflexão verdadeira, ou seja “só é fiel à intencionalidade do texto bíblico enquanto se procura encontrar, no coração da sua formulação, a realidade de fé que os mesmos exprimem e em que se liga esta realidade com a experiência crente do nosso mundo” (37), observando também a necessária superação da “letra” em si, mediante uma vida eclética fundada nos pilares da igreja, é necessário que o exegeta transcenda o texto além da letra e busque a mensagem contida nas sagradas páginas(38). Não obstante, a reflexão deve ser seguida pela unidade do Antigo e do Novo Testamento, pois um se concretiza no outro, e está intrínseco um no outro e ambos são a Revelação que se concretiza em Jesus Cristo (39) por meio de uma continuidade, de cumprimento e superação (40), o novo está contigo no antigo e este constitui a revelação daquele (41). Cuidado especial também deve ter a prática das lituras dos livros obscuros da bíblia onde exorta o Verbum Domini “os estudiosos e os pastores ajudem todos os fieis a abeirar-se também destas páginas por meio de uma leitura que leve a descobrir o seu significado à luz do mistério de Cristo” (42)
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